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Minha iniciação

Era noite, soprava um vento frio e seco e o céu do planalto central estava repleto de estrelas sem lua…Era 1987, dezembro para ser exato e a primavera já se despedia da chapada dos veadeiros. Eu morava com um casal em troca de serviços de manutenção da casa. Estava lavando a louça do jantar, enquanto Dio e Mara teciam tapetes na sala…quando de repente, entra pela casa um homenzarrão alemão chamado Herbert, trazendo pelas mãos uma pasta com uns escritos e um mapa traçado com espadas e serpentes. Disse que era um jogo milenar indiano que ele estava traduzindo e popularizando aqui no Brasil. Ele se intitulava um Templo Viajante com a missão de semear as artes, frutos, flores e um oficio de sobrevivencia. Tinha por ideal rumar na direção do sol poente a pé, resgatando o Deus Interno das pessoas que encontrasse pelo caminho e que estivessem disponíveis para trabalhar pela Nova Era…Um aquariano legítimo…

Logo que ouvi estas coisas sobre Templos Viajantes me identifiquei e me auto-convoquei um deles, pedi então a Herbert se eu podia lhe acompanhar até sua casa no Vale do Matão. Ele concordou com uma risadinha misteriosa…depois de 40 km andando a pé, no escuro, é que eu entendi o significado daquela risadinha…
Chegamos ao desfiladeiro que dava acesso ao Vale no amanhecer do dia e antes de descermos pela encosta, ele pediu para que tirasse toda a roupa e a colocasse em uma sacola.Estranhei, mas concordei perante o tom autoritário dele. Depois entendi que era para não pegar carrapato miquim que tinha por lá… Alto Paraiso de Goias é uma cidade localizada na Chapada dos Veadeiros e rodeada por formações rochosas que contem muitos minerais, como exemplo o uranio, cristal, ouro, etc…talvez por isso que quem está por lá senti uma energia no ar que ou se ilumina ou se machuca com ela…

Começamos a descer a encosta e pouco a pouco a vegetação árida do cerrado dava lugar a uma vegetação tropical com arvores frondosas e muitos coqueiros indaiá, um rio percorria todo vale vindo da chapada e proporcionando uma linda cachoeira na entrada. Andamos lá embaixo cerca de 500 mts. até chegarmos em uma cabana feita de pau-a-pique coberta com folhas de coqueiro. Antes de entrarmos ele me pediu que fizesse a revista em todo o corpo para catar todos carrapatos antes de entrar.

Tinha fora um fogão feito com pedras que serviam de chapa para assar massa de milho triturado por um moedor. Essa era a unica comida por lá… Aparentemente era só milho que eu avistava, mas com o passar dos dias eu aprendí com os macacos que o coco indaiá ao ser quebrado por uma pedra, desprende uma polpa doce riquissima em vitaminas e possui uma castanha comestivel que lembra castanha-do-Pará. A lagarta do coco ao ser assada na pedra se torna um delicioso salgadinho de coco cheio de proteina. Bebi muita agua e me banhei constantemente naquele rio cristalino e cheio de cristais em sua borda. As pedras do rio continham desenhos que conversavam comigo e me faziam entender o Maha Lilah como se as informações estivessem entrando pelos meus poros. Ah! como foi bom…eu tambem lia o manuscrito escrito por Herbert e jogava no tabuleiro dele, mas o encontro com este jogo foi pra mim, um reencontro com ele, como que se eu já o tivesse usado em outras epocas… Tudo que é bom passa rápido…me sentia leve no amanhecer do domingo, céu azul e um sol sem nuvens desde a alvorada. Preparamos as mochilas para partir, ambos com um ar de contragosto…deu um nó na garganta de saudades daquele lugar, como é facil viver com pouco…

Subimos a encosta do Matão em silencio rumo a chapada e os 40km de percurso até Alto Paraiso nem cansou. Chegamos por volta das 13hs. e Herbert me pediu de volta o manuscrito, pois ele viajaria para Brasilia ás 14hs. e levaria o Maha Lilah para tirar xerox. Foi então, que rapidamente emprestei um pirógrafo, arrumei uma madeirinha e fiz meu primeiro tabuleiro com os nomes das casas. Foi o que eu consegui ficar comigo e a partir dali, começava minha jornada em conhecer o jogo e compreende-lo como um espelho de expressão da vida real.

Eu voltei para casa de Dio e Mara e eles já tinham almoçado, faziam um pequeno repouso, antes de voltarem a tecer. Fui lavar a louça do almoço e me sentia como se tudo aquilo que vivi fosse um sonho…

Desde esse dia nunca mais parei de jogar o Maha Lilah e ainda hoje o levo comigo onde quer que eu vá.

Anexos (1)

  • DSCF0742.JPG - em 25/05/2009 17:05 por Roberto Mancini (versão 1)
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